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segunda-feira, 21 de julho de 2008


Domine “Miserere mei, Domine, quonian infirmus sum; sana me Domine, quoniam conturbata sunt ossa mea”.
(Rei Davi)


Sana me de formas turvas,
Domine.
Sana me da miséria tumular.
Sana me do ríctus da amargura.
Sana me do conturbado vendaval de Carrascozza.
Sana me de não fazer ablução com água de estrela.
Sana me de crótalos marinhos envenenados.
Sana me de cadáveres dragados nos pauis.
Sana me com os Santos Óleos e o azeite dos doentes.
Sana me de fétidas palavras.

Sana me.


Sana me com a força da doçura.
Sana me com a força da poesia.
Sana me com a força da música.
Sana me com a força das mulheres e das crianças.

Que língua, ossos e olhos sejam para sempre.






e
____________________________ *****.

domingo, 6 de julho de 2008


...um pouco mais e não via o último dos três primeiros sorrisos da jovem magnólia...
o corpo avisou que era tempo de parar...um dia que fosse.
__________e

foi espanto foi êxtase foi arrepio feliz
obrigada obrigada obrigada____foi apenas o que Lhe disse.



no meu ouvido tinha ficado uma nota. um sopro.

flor


flor


flor


__________ ao colo de Llansol


Excerto: Finita. Diário 2, 1985, p. 176-178

Jodoigne, 2 de Maio de 1977

Sentei-me sobre um pontão, à beira de uma estrada. Peguei no livro e pus-me a lê-lo, à medida que me ia invadindo o insólito da minha situação _______encontrar-me em terra estranha, longe de minha casa, sentada à beira de uma estrada cuja direcção desconheço, às 11 H.30 de uma manhã irradiante de sol.

Encontrava-me só.

E só então o marulhar da água ali correndo se fez ouvir como um movimento distinto. Criou-se uma progressiva tensão entre mim e a água e soube que me encontrava com o Amante. Marulhar também eu era, mas não de água. Notei bem que se tratava de um infinito verbal e sonoro que não abolia, não animava, nem sublimava a forma aquática do movimento.

Forma nua, em consonância intensa com outra forma nua, dava realidade ao espaço do Amante. Para além do medo, eu aceitava que nas margens do meu mundo habitual, outros reais criados viessem manifestar-se.

E tomo um carreiro que partia do pontão e acompanhava a corrente.

Agora eu era a não-água em movimento, consciente do meu marulhar.

Ando mais um pouco e noto que uma outra forma timidamente emerge, o pipilar dos pássaros nas copas das árvores. Rápidos e secos pios que, ainda desta vez, me indicam de que pipilo no meu marulhar, sem ser pássaro, nem fluida.

O Amante emerge de novo, no espaço desta similitude e desta diferença, simultâneas. Pipilar e não ser pássaro, podendo qualquer pássaro dizer o mesmo do caminhante que sou: Caminho e não sou caminhante. E assim penetro mais além no carreiro que me conduz a uma clareira, onde chego, sempre acompanhada por esta intuição da presença não sentimental do Amante.

Que era, pois, Ele, ali presente, me presenciando?

Não-água, como eu, mas marulhando como nós, eu e a água.
Não pássaro, mas pipilando.
Não caminhante, mas indo.
Não-pessoa, mas presença activa, manifestando-se por actos sucessivos e efémeros de tensão.

Sento-me num tronco nos limites da clareira, fechando os meus olhos fitos no seu centro, deixando que tudo corra, mesmo na sua imobilidade. E dou-me conta de que corre uma aragem pelas árvores da clareira, tal como um murmúrio, que me suscita a palavra murmuragem . A murmuragem das copas das árvores, como digo a murmuragem que sou . E dou por finda a cinestesia.

Poderia, na realidade, dizer que as árvores são pássaros, mas se o dissesse, a linguagem perderia o seu poder discriminante. Tratar-se-ia de uma poética amena, cujo efeito mais visível seria identificar os agentes diferentes da mesma manifestação. Para que tudo restasse, eliminaria o suceder, animaria as árvores que não voam, sublimaria a desenraizada que sou, sem poder voar, nem escoar-se. E o Amante perder-se-ia na linguagem.

Não tomei esse movimento por uma descoberta da natureza.

É uma simples paisagem, preciosa, porque lenta e silente. Tão só. Uma tão grande manifestação de vida para uma minúscula parcela de consciência. E nesta desproporção se anicha o Amante, forma evanescente, que me atraiu a esta clareira, em terra estranha. Construindo e abandonando formas, até que se ame o que o gosto não prevê, e depois deixa de amar, no corpo do caminho, não por ex-altação, mas por in-altação. E assim volto.

segunda-feira, 12 de maio de 2008






é na terra que enterro as palavras


e____


espero que se soltem

em poemas


vivos




para alegrar os dias quando exaustos alheios vazios

sábado, 10 de maio de 2008


não...não semeio ventos,
semeio sementes
e_________________________

colho cravos dos poetas para Poetas






__________________Bom fim de semana!

terça-feira, 6 de maio de 2008


___________________________________________________________________

este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado este blog não está parado...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

há palavras que faltam



as de.mais sobram-me



___________________________e

Continuo a pensar que a beleza da forma e da cor é a santidade das coisas.

Llansol, O Senhor de Herbais, p.48

[fotografias Excertos do Olhar]

quinta-feira, 17 de abril de 2008

tempos abruptos...

uma pedra é uma pedra. uma flor é uma flor e os pássaros voam porque têm asas.

hoje sou só o que fui e fecha-se-me a cortina da santidade das coisas

se há além ou aqui é mais, hoje não sei nem quero saber

não quero metafísica pre.sentir ou pensar

nem metáforas para falar do amor que foi ou da paixão que ardeu.

trago os ossos gastos em dor e as pernas são ferros.

não se morre da doença e a cura estraga.

______________________________________e também



nunca percebi porque razão a flor da laranjeira além de ser das abelhas é a flor das noivas virgens.


será porque as pétalas duram tão pouco tempo presas ao cálice?

brancas e bem cheirosas há tantas e mais bonitas... o jasmim as rosas... porque não?

________ ________

quarta-feira, 9 de abril de 2008

das coisas simples



Para quem vive no quotidiano das cidades e dos bairros de betão, estará farto da chuva do vento e do cinzento destes dias, quase que um prolongamento do inverno. Lá se foram buscar os agasalhos, as botas e os impermeáveis, quando já se pensava que estavam arrumados até lá mais para o fim do ano...



Mas em tudo existe o reverso da medalha


____________________e


por aqui que ainda é campo, esta chuva é abençoada. A terra pedia água para começar a fazer germinar os primeiros rebentos do ano.

Realmente não se pode agradar a gregos e a troianos, nem a mãe natureza!

quarta-feira, 2 de abril de 2008


_________ exactamente às cinco da tarde



de Lorca trago- Te o jasmim

cuidado destas minhas mãos__________porque



disses-te:

"só uma pausa para seguir o vento
respirar respirar rente e dentro e fundo. na seiva nívea. e voar."


_______________Não sentes o cheiro?




Fotografias em [Excertos do Olhar]

sexta-feira, 21 de março de 2008


[vertigem


branca]
____________

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem
Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte ?

Ferreira Gullar

________________________________________________________________
________________________

fotografias de MiE in [Excertos do Olhar]

domingo, 20 de maio de 2007

OS MEUS VIZINHOS: Take 2 - O REGRESSO!!

A vida é cíclica, como tudo na natureza.
Há um ano que não via os meus queridos vizinhos mais próximos, companheiros da primavera e do verão.
Este ano tiveram mais um filhote.
Adoro a alegria e a felicidade deles, demonstrada pelas alegres baladas que cantam.
Tudo o que fazem é com alegria, acordam bem dispostos, trabalham bem dispostos e o filhote que ainda não é independente, pois nem sequer ainda anda, farta-se de palrar, mesmo que esteja sozinho em casa não faz birras, fica sossegadito, e espera que os pais, voltem e lhe tragam as gulodices que ele gosta.
Os pais quando saem para trabalhar vão sempre a fazer carinhos um ao outro, sempre juntos, dançam, cantam, riem-se acho eu, porque às vezes parece-me que ouço risos, são muito livres, quando um deles vai para outra direcção o outro não faz fitas, não quer saber onde vai pois tem plena confiança nele, não o proíbe de ir e não fica amuado por ficar sozinho, continuam felizes com a certeza que assim é que é certo. Também não se incomodam com o que os outros pensam, e acho mesmo que se estão nas tintas para isso.
Adoro-os, não se metem na minha vida, respeitam-me e respeitam o meu espaço, não fazem intrigas sobre o que eu sou ou deixo de ser, às vezes, quando estou a fumar um cigarro no quintal (não fumo dentro de casa, paranóia do cheiro, da poluição do ar e ficar mais intoxicada ainda...) sentada na minha cadeira de braços, acho que me perguntam se estou bem porque chegam-se mais para perto de mim, fazem-me uma visita rápida e lá vão a cantar alegres e felizes.

Moram no meu quintal, mesmo em frente da minha porta no cimo de uma nogueira quase centenária, chamam-se melros, são lindos, todos pretos com os bicos cor de laranja.
Sou feliz perto deles. :))


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