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sábado, 23 de agosto de 2008



só eu sei o que não sei. o que iludo. que recuso saber. que finjo.
que não digo. que tento dizer. que omito dizendo. sussurros pálidos
leves. bruscos, às vezes. mas sempre confusos.
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só eu sei que não sou o que tento ser parecendo que sou o que nunca
fui e às vezes pensei que era.
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só eu sei o que sinto sinto pouco sinto muito
nada é demais quando o fumo se aproxima de mim
passos leves passos fundos passos doutras almas que me amaram e
desabitaram
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percursos cegos de morcego de pássaro sem asas
garganta atropelada por sílabas de chumbo
muros de pedra telhados de sombra avenidas de nogueiras
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só ela sabe quem eu sou - a sombra da minha voz
todos os meus antepassados foram bichos e mares
escalaram os alpes construiram ninhos de aço beberam os vulcões
fui amaldiçoada ao primeiro riso à primeira flor guardada
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todos se calaram quando eu nasci. todos me baptizaram de mulher
mas só eu sei que não sou o que tanta gente sabe de mim.
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Isabel Mendes Ferreira in um corpo (sub) exposto
pintura sobre colagem

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008



"O equívoco da relação do real com o imaginário sobre ele construído, nasce da obstinada ideia de que um está contido no outro, de que o imaginário é um real composto - e nunca a ideia de que o imaginário é uma realização de si própria que (re)inventa o real do qual partiu. O real é um monturo sem significação legível e é necessário que a arte o (re)invente para ele começar de facto a existir. O que se reencontra no real não está lá, porque de facto o que lá está, depois de estar alguma coisa, foi o imaginário do artista que o lá pôs. O real em bruto não é nada, antes de o artista o transcender a uma significação que é a da arte."

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente
(Nova-Série)-I , Venda Nova, Bertrand Editora, 1993, p. 98.)

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Aqui

à luz do pensamento de Baudrillard questiona-se "Ainda conseguiremos, hoje, "ver" o mundo real?"

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

É a "sharia"



Talvez ela esteja a ser chicoteada no exacto minuto em que escrevo estas palavras. Uma jovem da Arábia Saudita, condenada a duzentas vergastadas e seis meses de prisão, depois de ter sido violada catorze vezes por sete homens.
O seu crime? Estar dentro de um automóvel acompanhada por um homem, nesse momento em que um grupo de sete violadores a atacou. Contestou a sentença e viu a sua punição ampliada. Duzentas chicotadas podem matar. Explicam-me que, como não é essa a condenação, a tortura será doseada - os verdugos sabem quantas chicotadas têm que dar de cada vez, para que a jovem sobreviva. Já sobreviveu a catorze violações de seguida. Tem dezanove anos.
(...)
É a "sharia", elas estão habituadas.
(...)
É a "sharia", repetimos, como se os seres humanos que vivem sob essa barbárie não fossem feitos da mesma carne e do mesmo sangue que os ocidentais. Pensamos que é lá longe, que não podemos fazer nada. Mesmo quando os maus tratos sucedem no nosso país, ao nosso lado, as pessoas sentem-se impotentes. Ou sentam-se na impotência. Não acabou a menina Esmeralda por ser condenada à "sharia" do Espermatozóide, em vigor nos tribunais portugueses à revelia da Declaração dos Direitos da Criança - uma "sharia" que determina a prevalência da biologia sobre os afectos da criança?
(...)

Inês Pedrosa. Vale a pena ler na íntegra aqui

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