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domingo, 6 de julho de 2008


...um pouco mais e não via o último dos três primeiros sorrisos da jovem magnólia...
o corpo avisou que era tempo de parar...um dia que fosse.
__________e

foi espanto foi êxtase foi arrepio feliz
obrigada obrigada obrigada____foi apenas o que Lhe disse.



no meu ouvido tinha ficado uma nota. um sopro.

flor


flor


flor


__________ ao colo de Llansol


Excerto: Finita. Diário 2, 1985, p. 176-178

Jodoigne, 2 de Maio de 1977

Sentei-me sobre um pontão, à beira de uma estrada. Peguei no livro e pus-me a lê-lo, à medida que me ia invadindo o insólito da minha situação _______encontrar-me em terra estranha, longe de minha casa, sentada à beira de uma estrada cuja direcção desconheço, às 11 H.30 de uma manhã irradiante de sol.

Encontrava-me só.

E só então o marulhar da água ali correndo se fez ouvir como um movimento distinto. Criou-se uma progressiva tensão entre mim e a água e soube que me encontrava com o Amante. Marulhar também eu era, mas não de água. Notei bem que se tratava de um infinito verbal e sonoro que não abolia, não animava, nem sublimava a forma aquática do movimento.

Forma nua, em consonância intensa com outra forma nua, dava realidade ao espaço do Amante. Para além do medo, eu aceitava que nas margens do meu mundo habitual, outros reais criados viessem manifestar-se.

E tomo um carreiro que partia do pontão e acompanhava a corrente.

Agora eu era a não-água em movimento, consciente do meu marulhar.

Ando mais um pouco e noto que uma outra forma timidamente emerge, o pipilar dos pássaros nas copas das árvores. Rápidos e secos pios que, ainda desta vez, me indicam de que pipilo no meu marulhar, sem ser pássaro, nem fluida.

O Amante emerge de novo, no espaço desta similitude e desta diferença, simultâneas. Pipilar e não ser pássaro, podendo qualquer pássaro dizer o mesmo do caminhante que sou: Caminho e não sou caminhante. E assim penetro mais além no carreiro que me conduz a uma clareira, onde chego, sempre acompanhada por esta intuição da presença não sentimental do Amante.

Que era, pois, Ele, ali presente, me presenciando?

Não-água, como eu, mas marulhando como nós, eu e a água.
Não pássaro, mas pipilando.
Não caminhante, mas indo.
Não-pessoa, mas presença activa, manifestando-se por actos sucessivos e efémeros de tensão.

Sento-me num tronco nos limites da clareira, fechando os meus olhos fitos no seu centro, deixando que tudo corra, mesmo na sua imobilidade. E dou-me conta de que corre uma aragem pelas árvores da clareira, tal como um murmúrio, que me suscita a palavra murmuragem . A murmuragem das copas das árvores, como digo a murmuragem que sou . E dou por finda a cinestesia.

Poderia, na realidade, dizer que as árvores são pássaros, mas se o dissesse, a linguagem perderia o seu poder discriminante. Tratar-se-ia de uma poética amena, cujo efeito mais visível seria identificar os agentes diferentes da mesma manifestação. Para que tudo restasse, eliminaria o suceder, animaria as árvores que não voam, sublimaria a desenraizada que sou, sem poder voar, nem escoar-se. E o Amante perder-se-ia na linguagem.

Não tomei esse movimento por uma descoberta da natureza.

É uma simples paisagem, preciosa, porque lenta e silente. Tão só. Uma tão grande manifestação de vida para uma minúscula parcela de consciência. E nesta desproporção se anicha o Amante, forma evanescente, que me atraiu a esta clareira, em terra estranha. Construindo e abandonando formas, até que se ame o que o gosto não prevê, e depois deixa de amar, no corpo do caminho, não por ex-altação, mas por in-altação. E assim volto.

11 comentários:

Ana Paula disse...

Um texto magnífico, Mie!
Que bela escolha fizeste, combinada com a frescura pulsante das tuas flores!

Retive o poder discriminante da linguagem... da M.Gabriela Llansol

Espero que estejas bem. :)
Bjs!

alice disse...

lindíssimo, mié. é uma delícia ler assim. e com tão belas flores e pétalas nas imagens :) obrigada! um grande beijinho.

casa de passe disse...

gostámos de passar por aqui

(Loulou + NiNi)

isabel mendes ferreira disse...

beijo-te.



______________.

com Llansol. em cada flor.

Maria disse...

Belo!
Saudades de passar por aqui
de te ler
assim...

beijos

Maria disse...

Voltei para te desejar as melhoras
dizer que te gosto
e deixar outro beijo...
:))

Pepe Luigi disse...

Belíssimo texto oportunamente inserido dentro da vivacidade própria da Flôr.
Bjs

jorge vicente disse...

o fulgor

do verso

M. disse...

Lindíssimo. E bálsamo hoje e agora.
Llansol única.

Obrigada tu, flor.

Beijo

Mié disse...

Obrigada pelas vossas palavras.

beijo.Vos

M. disse...

mié, eu não sabia :(
se soubesse teria sido diferente. fiquei a sentir me mal, pensei que me estivesses a acusar de copiar até perceber que te tinham levado a ideia a ti.
quem me dera ter sabido logo...

beijo grande para ti

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